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Retratos de nova-erenses estão em exposição de fotógrafo em BH
Categoria: EditalData de Publicação: 15 de maio de 2015
No dia 16 de abril, a servidora pública Silvania Mendes e o fotógrafo Moriá Benevides visitaram a exposição fotográfica “Paisagem Ambulante 381”, do fotógrafo Daniel Moreira, no Centro de Arte Contemporânea e Fotografia, na Praça Sete em Belo Horizonte e foram gentilmente recebidos pelo artista para uma entrevista.
O motivo da visita foi a presença de, no mínimo, quatro residentes de Nova Era nas fotografias feitas pelo artista. Dentre eles, destaca-se a foto do popular Tarcísio, figura fácil nas ruas da cidade e conhecido dos munícipes. Os outros fotografados são o ambulante “Tãozinho do côco”; um senhor conhecido por “Tino Gomes” e um senhor de idade que, segundo relatos, é morador do bairro Drumond e teria falecido nos últimos meses.
As imagens foram replicadas por centenas de pessoas nas redes sociais, principalmente o retrato de Tarcísio que obteve cerca de 400 compartilhamentos no facebook em uma determinada postagem.
Ao longo de duzentos quilômetros da BR-381, no trecho entre Belo Horizonte e Ipatinga, Daniel desenvolveu durante quase cinco anos um registro de fotografias étnico-cultural com o objetivo de evidenciar as transformações da rodovia e a forma como indivíduos que ali habitam se relacionam com ela. O projeto nasceu visto a necessidade do artista de desenvolver uma relação com a estrada.
A exposição pode ser visitada gratuitamente até o dia 7 de junho, de terça a sábado de 9h30 às 21h30 e aos domingos de 14h às 21h, no Centro de Arte Contemporânea e Fotografia, na Avenida Afonso Pena, 737, Centro.
Residente em Belo Horizonte, frequentemente visita a família em Ipatinga e durante o percurso passou a observar as pessoas e as paisagens. “Nós não percebemos, mas a estrada tem vida própria. Ela é como um fluxo sanguíneo, que perpassa e molda pessoas e objetos que transitam por ela”, explica Daniel Moreira.
PERGUNTA - O seu projeto obteve uma boa repercussão em Nova Era, visto que das 34 imagens selecionadas para a exposição, quatro são de pessoas da nossa cidade, em especial o Tarcísio, figura popular nova-erense, muito conhecido e querido por todos. A foto dele foi compartilhada por centenas de pessoas nas redes sociais e isso causou um grande interesse pelo seu trabalho. Diante disso queremos saber o porquê da escolha de Tarcísio e qual o seu sentimento ao fotografá-lo?
DANIEL - Nesses anos de idas e vindas no percurso de Belo Horizonte à Ipatinga, pela BR-381, venho desenvolvendo meu trabalho ao longo de vários anos. Percebi que Tarcísio ficava no posto próximo à Nova Era, sempre no mesmo horário nos dias em que eu por lá passava. Fiz a foto dele mais ou menos na hora do almoço. O que me chamou muita atenção foi o olhar dele muito brilhante. Então me aproximei, ele foi simpático e pedi a foto... Tarcísio fala muito pouco. Depois que visualizei a foto, notei um olhar tão vibrante e melancólico ao mesmo tempo que me chamou muito a atenção. A imagem dele é muito forte.
Você tinha conhecimento da repercussão da exposição em Nova Era?
Não. Recebi a notícia por vocês e é gratificante perceber o interesse das pessoas de Nova Era pela exposição. Eu não tinha ideia de quem ele era. Não sabia que Tarcísio morava em Nova Era. Também não esperava tanta repercussão na cidade. Soube também que, além de Tarcísio, outras pessoas de Nova Era foram fotografadas.
Você considera a possibilidade de levar um recorte da exposição para Nova Era?
Sim, porque Nova Era abraçou a exposição. Seria sensacional, principalmente pela maneira com que a cidade se interessou pelo projeto. Eu acho que o conhecimento é válido quando compartilhado. Logo, quanto mais pessoas tiverem acesso, melhor.
Qual estilo você aborda em suas fotografias? O seu trabalho é desenvolvido com qual finalidade artística?
Eu acho que o trabalho de um artista é interessante pelo sentido que o autor relaciona se com a sua própria vida. Quando se trabalha com a arte, é necessário nortear o momento de vida que rodeia o artista. Então o que interessa ao artista, ou seja, aos olhos dele, é internalizado e devolvido para os olhares do público. E é isso que faço comigo!
Relacionando sua forma de trabalho, no caso específico desse projeto, qual seu sentimento ao registrar as imagens e o que te levou a criar a exposição?
Nessa época, durante o desenvolvimento do trabalho, fiz com frequência por quase cinco anos o trajeto na BR-381. Então passava muito tempo sozinho na estrada. Essa exposição reflete esse pensamento contemplativo e as imagens possuem essa visão um pouco solitária que eu sentia na época. Esse segmento no sentido artístico muito me interessa, pois essa relação que o ser humano tem com o ambiente ao qual ele está inserido. Ou seja, os sentimentos que a pessoa tem com o local. Como ele lida com as questões preponderantes para a sociedade e como ele retorna isso para o mundo. No caso específico, Paisagem Ambulante 381, as expressões das pessoas são muito marcantes, muito fortes. Observamos também objetos jogados, como caçambas e outros. Então você tem essa relação de como o ser humano convive com o meio que o cerca e de certa maneira ele incorpora tudo. Com isso, chega um certo tempo em que os objetos deixam de ser notados, e é comum no ser humano voltar os olhares somente aos seus interesses.
Como você abordou essas pessoas para fotografar?
No caso da BR 381, foi mais difícil porque é um trecho muito perigoso e quase não possui acostamento. Quando eu me interessava visualmente pela pessoa, parava o carro, conversava e pedia a foto. Algumas pessoas não autorizavam de forma alguma, pois não queriam ser encontradas. Outras que aceitaram, posicionaram para a foto e facilmente eu percebia nelas a expressão de satisfação. Nessas imagens específicas, ocorre uma construção visual da paisagem com a pessoa. Quase um universo a parte.
Você acredita que, com a sua exposição, tenha ocorrido uma mudança no conceito das pessoas?
Sim. Com a exposição as pessoas lançam olhares diferenciados para o trajeto. A arte não responde, ela pergunta. Ao desenvolver esse trabalho, a necessidade foi a de criar um olhar reflexivo, despertar nas pessoas uma forma diferenciada de apreciação das fotografias. Na verdade, cada um possui uma leitura das imagens vistas e a absorção de ideias são inúmeras. Porém, o importante é que as pessoas sejam provocadas e assim ocorram transformações. Tenho recebido e-mails e mensagens com depoimentos emocionados de pessoas relatando sobre a exposição. O importante é que o processo de deslocamento das pessoas a partir do projeto ficou modificado e esse retorno é gratificante. É importante que a pessoa pare pelo menos cinco segundos diante de cada foto, que o público seja instigado a pensar e refletir sobre a imensidão de informações contidas nas imagens.
Sobre o fotógrafo
Daniel Moreira é natural de Belo Horizonte e graduou-se em Comunicação Social. Vem participando de exposições e dedicando o seu trabalho à exploração dos sentimentos e condições humanas. Em 2014 foi contemplado com o XIV Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia pelo projeto “Paisagem Ambulante 381 “. Também foi selecionado para o 5 º Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia e em 2013 foi finalista do Prêmio de Arte Conrado Wessel. Realizou diversas exposições, e dentre elas se destacam a exposição Beleza e Poder, no Galpão das Artes Urbanas Hélio Pellegrino que foi mapeada pelo programa do FotoRio de 2007. Exposição Catadores realizada no Viaduto das Artes em 2014 e a exposição coletiva “Segue-se Ver O que Quisesse “ expondo a série “A Pré-Condição do Imaginário” realizada no Palácio das Artes. Recentemente foi selecionado para exposição individual que será realizada no mês de setembro na Galeria de Artes Antônio Sibasolly em Anápolis (Goiás).
Os trabalhos de Daniel representam sua necessidade de tentar compreender e explorar os sentimentos e condições humanas. Em um de seus primeiros projetos, A Cara da Saudade, o artista fez um ensaio que buscou capturar e refletir sobre a saudade. A partir dessa reflexão, Daniel voltou seu olhar para a nossa dificuldade de desapego. Em Área De Risco, o artista fotografou uma série de objetos sem utilidade, que eram guardados por sua família.
